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O luxo já não lança produtos, encena mundos

A Dom Pérignon trocou a apresentação convencional por salas imersivas, música, gastronomia e performance. No novo luxo, o produto continua no centro, mas já não é suficiente para contar a história sozinho.

Uma garrafa, três colheitas e nenhuma vontade de se limitar a uma prova convencional. Para apresentar em simultâneo o Vintage 2017, o Vintage 2008 Plénitude2 e o Rosé Vintage 2010, a Dom Pérignon criou Expressions of Harmony, uma experiência imersiva que passou por Nova Iorque e Los Angeles no passado mês de junho. Cada champanhe ocupava uma sala própria, com som, gastronomia e performance concebidos para traduzir o seu carácter.

No espaço dedicado ao Vintage 2017, uma instalação sonora transformava em paisagem audível a instabilidade climática desse ano. A sala do Vintage 2008 Plénitude 2 assumia um registo íntimo, construído em torno de um momento gastronómico de inspiração japonesa. O percurso terminava junto do Rosé Vintage 2010, com uma cerimónia ao vivo de mochitsuki, o ritual tradicional de preparação do mochi. Cada linguagem funcionava como uma extensão do vinho, criando uma narrativa que o paladar, por si só, dificilmente conseguiria sustentar.

A estratégia diz muito sobre o rumo da comunicação de luxo. Exclusividade, celebridades e cenários fotogénicos continuam presentes, mas o lançamento convencional perdeu capacidade de surpresa. As marcas procuram agora construir universos temporários, onde o público não recebe apenas informação: atravessa uma história, participa nela e sai com matéria para a memória e para o ecrã.

A própria Dom Pérignon reforçou esta ideia no Révélations 2026, realizado no Guggenheim de Bilbau. A apresentação do Vintage 2018, o primeiro inteiramente criado sob a direção do chef de cave Vincent Chaperon, cruzou vinho, poesia, gastronomia e arte. Tilda Swinton apresentou House of Gestures, uma performance silenciosa cocriada com Olivier Saillard, enquanto a Maison explorava o tema do lugar e da sua influência sobre a criação.

O produto não desaparece neste novo teatro. Pelo contrário, torna-se o argumento central de uma encenação mais ampla. O desafio está em impedir que o cenário o engula. Quando funciona, a experiência não decora a garrafa: oferece-lhe voz, espaço e uma segunda vida cultural.

O luxo já não se limita a revelar uma novidade. Prefere abrir a porta e convidar-nos a entrar.